O impacto da obesidade na displasia coxofemoral
- Felipe Garofallo
- 26 de fev.
- 3 min de leitura
A displasia coxofemoral é uma das doenças ortopédicas mais comuns em cães, especialmente em raças de grande porte, como Labrador Retriever, Pastor Alemão, Golden Retriever e Rottweiler. Trata-se de uma condição hereditária caracterizada pelo desenvolvimento anormal da articulação do quadril, resultando em instabilidade, desgaste articular progressivo e, frequentemente, osteoartrose.

Embora a predisposição genética seja o principal fator desencadeante, o peso corporal exerce um impacto significativo no curso da doença, tornando a obesidade um fator crítico para a piora dos sintomas e da qualidade de vida do animal.
A obesidade em cães tem se tornado um problema cada vez mais frequente, em grande parte devido à alimentação inadequada e ao sedentarismo. Muitos tutores, na intenção de demonstrar afeto, oferecem petiscos em excesso ou permitem que o animal tenha acesso livre à comida sem controle da quantidade ingerida. Esse comportamento, aliado à falta de atividade física, resulta no acúmulo excessivo de gordura corporal, sobrecarregando as articulações e intensificando os sinais clínicos da displasia coxofemoral.
Em cães com predisposição ou diagnóstico já estabelecido, o excesso de peso agrava a instabilidade da articulação do quadril. Isso ocorre porque a articulação coxofemoral, que já apresenta um encaixe inadequado entre a cabeça do fêmur e o acetábulo, sofre uma carga excessiva, levando a um desgaste acelerado da cartilagem articular. Esse processo contribui para inflamação crônica, dor intensa e perda progressiva da mobilidade. Em cães obesos, a degeneração articular ocorre de forma mais rápida e intensa quando comparada a cães mantidos dentro do peso ideal.
Além disso, a obesidade está associada a um aumento da inflamação sistêmica, um fator importante para a progressão da osteoartrose. As células de gordura, conhecidas como adipócitos, não são apenas depósitos passivos de energia, mas também produzem substâncias pró-inflamatórias chamadas adipocinas. Essas substâncias desempenham um papel na perpetuação do processo inflamatório dentro da articulação afetada, agravando a dor e a degeneração do tecido cartilaginoso. Isso significa que, além do impacto mecânico da sobrecarga nas articulações, a obesidade também influencia negativamente a resposta inflamatória do organismo, piorando ainda mais o quadro clínico.
Outro aspecto fundamental a ser considerado é o impacto do peso corporal na eficácia dos tratamentos disponíveis. Muitos cães com displasia coxofemoral necessitam de manejo multidisciplinar, incluindo fisioterapia, medicações analgésicas, condroprotetores e, em casos mais graves, cirurgia. Entretanto, quando o animal está obeso, a resposta ao tratamento pode ser prejudicada.
A fisioterapia, por exemplo, é mais difícil de ser realizada, pois o cão pode apresentar resistência ao movimento devido ao peso excessivo. Além disso, em casos que exigem intervenção cirúrgica, o excesso de peso aumenta os riscos anestésicos e pode comprometer a recuperação pós-operatória, dificultando a reabilitação.
Manter o peso ideal em cães predispostos ou já diagnosticados com displasia coxofemoral é, portanto, uma medida essencial para a qualidade de vida do animal. O controle do peso pode ser feito por meio de uma alimentação equilibrada, com rações de qualidade e controladas em calorias, evitando petiscos calóricos e garantindo a prática regular de exercícios adequados à condição do cão. Atividades de baixo impacto, como caminhadas moderadas e hidroterapia, são especialmente recomendadas para cães com displasia coxofemoral, pois ajudam a fortalecer a musculatura ao redor da articulação sem sobrecarregar a estrutura óssea.
A obesidade não deve ser encarada apenas como uma questão estética ou secundária, mas como um fator determinante no manejo da displasia coxofemoral. Controlar o peso do cão não apenas reduz a sobrecarga articular e a inflamação, como também melhora a eficácia dos tratamentos e aumenta a expectativa e qualidade de vida do animal.
O papel do tutor nesse processo é fundamental, garantindo uma nutrição balanceada e incentivando atividades físicas regulares. Dessa forma, é possível proporcionar mais conforto e mobilidade ao cão, minimizando os impactos da displasia e permitindo que ele tenha uma vida mais ativa e saudável.
Referências bibliográficas
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